20/11/2016 - Domingo

Caso do Mês de Novembro

Neste último mês tivemos dois achados incidentais em exames de Tomografia Computadorizada de rotina. Ambos os pacientes apresentavam queixas de cefaleia, sem relato de outras alteações no momento do exame.

Podemos observar nos exames 1 e 2 a presença de formações alongadas com densidade de gordura acompanhando o corpo/esplênio do corpo caloso, ambos compatíveis com lipomas de corpo caloso.

No exame 2 há também a persistência do cavum vergae e septo pelúcido (variações anatômicas).

Segue uma breve descrição sobre os lipomas de corpo caloso para um melhor entendimento sobre os casos e possíveis correlações clínicas.

 

Lipomas do Corpo Caloso

Lipomas são tumores benignos constituídos de gordura e correspondem às neoplasias de partes moles mais comuns nos adultos. Características macroscópicas configuram a eles uma consistência mole, móvel e indolor. Ocorrem em vários locais do corpo, porém são extremamente

raros no sistema nervoso central (SNC), perfazendo cerca de 0,03% a 0,08% das neoplasias intracranianas. Apesar de poderem ser encontrados no tuber cinereum, no ângulo ponto- cerebelar e na cisterna ambiens, a variedade mais conhecida e comum é aquela associada ao Corpo Caloso (CC). Foi descrita pela primeira vez em 1856 por Von Rokitanski, como um achado de autópsia.

Diversas teorias foram propostas para explicar a origem dos lipomas intracranianos. Acredita-se que se trate de condição hamartomatosa congênita, originada a partir do deslocamento do mesênquima, associada a malformações disráficas, disgenesia meníngea ou vascular in situ. Quando associado a processo disráfico (defeito na linha média devido ao mal fechamento do tubo neural), este não constitui a causa do lipoma, mas uma condição de provável associação genética.

Supõem-se que defeitos no processo de reabsorção das meninges primitivas para a formação dos espaços subaracnóideo e cisternal, possam resultar na nidação da meninge primitiva, a qual originaria os componentes celulares dos lipomas intracerebrais. Esta teoria explicaria a localização invariável no espaço subaracnóideo ou cisternal, justificando a alta incidência de lipoma do CC nestes locais, em relação a outras partes do SNC.

A anomalia mais comumente associada ao lipoma do CC é a sua agenesia que pode ser total ou parcial, associada ou não a hemiatrofia cerebral e a outros lipomas intracranianos. Nas imagens por tomografia computadorizada, o lipoma possui área central de baixa densidade, com valores de atenuação semelhantes a gordura (-50 a -100 Unidades Housfield), sendo recoberto por calcificações típicas em forma de casco. O diagnóstico diferencial é feito descartando-se cistos dermóides e teratomas, que geralmente possuem outras localizações intracranianas.

A RM permite um diagnóstico mais preciso, especialmente em se tratando de lesões pequenas. Nas sequências em T1 as lesões aparecem hiperintensas, enquanto em T2 se apresentam com sinal de intensidade intermediária ou hipointensas. Já as sequências com saturação de gordura ou STIR demonstram supressão de sinal dentro do tumor, confirmando a presença de gordura nestas lesões.

Anatomicamente os lipomas dividem-se em dois grandes grupos4: 1- Tubulonodulares (T), anteriores ao CC, forma arredondada, pouco maiores em comprimento do que em diâmetro (maior que 1 cm), seu epicentro localiza-se no joelho do CC e em 83% das vezes se estende para a porção anterior da fissura inter-hemisférica; 2- Curvilineares, posteriores ao CC, são significativamente maiores em comprimento do que em diâmetro (inferior a 1 cm), e podem acompanhar todo o corpo caloso, ou parte deste.

Clinicamente, 50% dos casos podem ser assintomáticos, e a apresentação mais comum para ambas as variedades são crises convulsivas, geralmente resistentes ao tratamento anticonvulsivante. Outros sintomas associados ao lipoma do CC são: cefaléias secundárias, alterações do estado mental, fraqueza e parestesias em membros inferiores, todos predominando na variedade curvilinear.

O tratamento cirúrgico destas lesões raramente é indicado. Quando houver extensão do lipoma por um defeito ósseo frontal, a cirurgia deve objetivar efeitos cosméticos. A alta vascularização, o fato de as artérias cerebrais anteriores atravessarem a lesão, a alta aderência da cápsula ao parênquima cerebral adjacente e a possibilidade de outras malformações congênitas associadas tornam estes tumores de difícil ressecção. A epilepsia, que é sua principal manifestação clínica, não melhora após a remoção cirúrgica do tumor.

 

Os pacientes aqui descritos possuem a variedade C de lipoma do corpo caloso, sem presença de qualquer sintoma associado, sendo achados incidentais.

Bibliografia:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X2000000500027

http://files.bvs.br/upload/S/0103-5355/2013/v32n2/a3682.pdf

https://radiopaedia.org/articles/pericallosal-lipoma

Exame 1

Exame 2